quinta-feira, 31 de agosto de 2006


DE FILHO PARA MÃE

Mãe, Vó Otilia,

A Lorena segue emocionando com seus avanços rápidos. Cada vez mais independente, nos ensina a respeitar sua individualidade. De manhã, ao me ver, sempre o mesmo sorriso terno e sincero, que pouco a pouco trata de quebrar e amenizar os vértices mais angulosos da minha personalidade por vezes turrona. Eu sei que você sabe do que estou falando. Posso ver seus olhos brilhando cada vez que chego em casa e você está com a Lorena no colo. A propriedade engrandecedora dela, obrigando todos a uma sinceridade absoluta.
Agradecemos igualmente a sua grandmaternidade,

Marcelo
BRUNA PATRIZIA MARIA TERESA ROMILDA LOMBARDI

Aconteceu. Fomos jantar com Bruna Lombardi e Carlos Alberto Riccelli. Diadorim e Nô. O boto, o amante de Odete Roitman e a mulher que eu queria ser quando tinha onze anos. Quando ia imaginar?
Enquanto bebericava um vinho e degustava as histórias deste casal tão gentil, viajava para Assis no pensamento.
Me lembrava deles emoldurados por aquela tv que tinha porta sanfonada pra gente fechar quando chegasse visita.
Falamos da vida e dos segredos do casamento. O deles é de verdade e já dura dezenas de anos.
No dia seguinte gastei quatrocentos e cinquenta e seis reais em cremes para o rosto. Tenho meus motivos: vi uma mulher vinte anos mais velha sem nenhuma marca da vida.
Contei para a minha mãe e ela ficou louca da vida. Não pela minha vaidade instantânea, mas porque não peguei um autógrafo para ela mostrar para as amigas no bingo.

O MARIDO DA CABELEIREIRA (Le mari de La Coiffeuse)

Não há nada mais francês e singelo do que esta história, dirigida por Patrice Leconte. Na fábula do início, um menino de 12 anos decide o que vai ser quando crescer: marido de cabeleireira. O personagem predestinado encontra sua musa e vive com ela um amor infinito, simples e delicioso, entre pentes, espelhos e dias corriqueiros. Mais singelo impossível.
É que no meio disso tem eu, a própria cabeleireira.

CONSELHO PARA A FEFÊ

Fefê,

Obrigada por me dar a honra de acompanhar o seu blog. (Para quem quiser:www.palomices.blogspot).
Larga a publicidade, você é artista meu amor.

Sua fã,

Duds
EU QUE AGRADEÇO

Nica

Imagino a razão desse envio e se estou errada mesmo assim acertei.
Preciso tomar posse dessa verdade e utilizá-la nas horas certas, pra sempre ou até para o sempre que se resolve de forma atemporal.
Te amo por isso e por todo o resto. Por já ter me feito rir, chorar, vencer e também sofrer, mas principalmente por me conhecer além de mim mesma.

Obrigada.

Cice
RICARDO REIS

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.
E-MAIL PARA UMA AMIGA QUE NÃO VEJO HÁ ANOS


Hoje como carne, depois de 5 anos vegetariando.
Também aprendi a gostar de conhecer pessoas, mas continuo seletiva. Posso ser apresentada para o Walter Sales e não me conectar com o jeito dele, mas cair de amor pela amiga do amigo de alguém, que estava quietinha no canto de uma mesa. Só Deus sabe se vai dar liga ou não. Se não der, fico quieta...
E você?


UM PASSO DE CADA VEZ

Ontem a Lolô estava muito contente porque deu sete passos.
Ela dançava e berrava de alegria... Eu disse pra ela: filha, às vezes a gente sente tanta felicidade, né?
Adoro isso. Construir a vida colando instantes. Um no outro.
Acho que estava sendo muito feliz naquele instante que disse isso.
Agora ele passou.
Estou neutra.
GANHAR TEXTOS ME DÁ MAIS PRAZER DO QUE GANHAR FLORES

Não me aquietava porque não conseguia acabar o conto da datilógrafa que trabalhava com Sr Osnir.
Pedi que o Tin me ajudasse e recebi tão belo texto que o início da história não me importou mais. Ganhar textos é melhor do que ganhar uma dúzia de rosas. Acho até que é melhor do que ganhar jóia.

"Até que um dia, a falta de papel fez a datilógrafa ganhar as ruas para comprar mais. Um milheiro novo, cheiroso pensou, mil páginas alvas. Eis que em nenhuma papelaria da cidade havia uma folha sequer de papel. Há tempos que já não chegam, disse um. Nunca ouvi falar disse outro. E assim a datilógrafa se deu conta que já não havia mais papel no Mundo. O pouco que se podia ver aqui ou ali era um recorte, um rasgo rôto de um papel moribundo que não duraria mesmo muito tempo. A datilógrafa chorou por alguns minutos no último banco da igreja e então voltou para o escritório, convicta de que poderia dar um jeito nessa situação, de que poderia reinventar seu ofício, vê-lo por fora, de outro ângulo, outro viés. Chegou a sua mesa e...."
GRÁVIDA DO MUNDO

Na oitava semana de gravidez escrevi assim:
Eu te amo sem te conhecer. E ninguém me disse que uma vez grávida, você se torna mãe do mundo.
Estou morrendo de amor.


DOM QUIXOTE

Estava lendo agora um texto que falava sobre Dom Quixote e Sancho Pança. Na verdade, não li nada de Cervantes, nem mesmo esta obra. Mas sei que Dom Quixote falou muito de liberdade. Ser livre é não se aprisionar por dentro.
Desejo muito que a Lolô traga esta sabedoria e a alegria de ser livre. De viver sem amarras.Digo a ela: seja, filha, apenas seja. E se possível não deixe a candura faltar.
Como Dom Quixote, aprenda cedo a olhar nos olhos. Aprenda a se expressar, dizer o que pensa, dançar, achar que pode mudar as coisas, fotografar, pintar, tocar, escrever.

Mamãe


PLAY

Tenho uma mania muito ingrata.
Começo histórias e as deixo esquecidas. De vez em quando penso assim: que fim levou aqueles dois? Será que se casaram? Mas como se casaram, se eu não os casei!
Quer ver, criei muitas vidas. Todas estão estagnadas, esperando por mim. Um relojoeiro, uma secretária, um menino míope.
Na minha memória fica uma cena em pause.
(Imagine só se alguém tivesse o poder de dar um pause na nossa vida…)
Por essas e outras fiquei com medo de começar um blog.
Mas comecei e agora vou até o fim. Assim aproveito para ir me inventando.