sexta-feira, 17 de novembro de 2006

AMIGA DE INFÂNCIA

Sábado passado a Fernanda Jerônimo minha amiga de infância se casou eu eu não fui. Não fui porque a Adri pediu folga e a Lolô estava em franco mau-humor com os dentes nascendo.
Pois é, mas eu tinha que estar lá. A Fefê era muito minha amiga. Morava perto de casa, fazíamos natação juntas, catecismo, perseverança, jazz, basquete. Íamos juntas à missa da criança. Levávamos juntas a oferenda para o Mosenhor Floriano, que chegou a parar uma missa dizendo que algumas crianças estavam rindo muito e atrapalhando o sermão. A criança era eu que fazia a Fefê suar frio. Fefê era a mais magra da classe, de coluna mais ereta, mais estudiosa, mais responsável e a mais contida. Ganhava medalhas de honra ao mérito, levava lanche balanceado que sempre contava com um pão-de-leite com requeijão, cuja dentada era disputada a tapa por nós. Eu, mais baixa que ela, menos correta, menos magra, com notas menores (mas ainda boas, já que ela me passava cola) formava com ela uma dupla improvável, mas muito unida. A gente fazia coreografias de jazz do disco da Rita Lee para apresentar para a mãe dela no fim do dia. E depois íamos de bicicleta até o colégio Carlos Alberto. Lá, eu gostava de carregar minha berlineta escadaria acima e depois descer montada na bicicleta, os parafusos caindo pelo chão e a gargalhada solta porque o tranco era grande e a gente ficava muito engraçada naquela situação. Depois me lembro de nós duas com martelo tentando desamassar a Ceci da Fefê.
Teve também um dia que meu pai arrancou os bancos do Opala para mandar arrumar. Ficou só o dele. Para eu sentar pôs o banquinho da cozinha ao lado do câmbio, mas na primeira curva o banquinho virou e eu decidi ficar sentada no chão do carro mesmo. Estávamos indo buscar a Fefê. Papai buzinou em frente a casa dela e ela apareceu na porta. Viu só ele no carro e estranhou. Até que eu me levantei do chão e ela entendeu tudo. Entrou no carro, sentou ao meu lado e, desesperada, tentava de todo jeito conter a gargalhada. Eu não contive, fui me contorcendo de rir da situação.
Fefê virou uma engenheira, formada pela Unicamp. Trabalhadora, séria, correta.
Sábado ela se casou e eu não fui. Mas o que sinto mesmo é não ter podido embrulhar para presente essas lembranças. Para ela poder sempre espiar a nossa infância e rir sem se segurar.

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