quarta-feira, 18 de outubro de 2006

UMA DEDICATÓRIA

Na primeira edição de "Mafuá do Malungo" , Manuel Bandeira escreveu a seguinte dedicatória a João Cabral:
"A João Cabral de Melo Neto,
Impressor deste livro e magro,
Poeta, como eu gosto, arquiteto,
Oferto, dedico e consagro."

Bandeira é o poeta do meu coração. Leio com cuidado cada verso que escreveu, porque vira e mexe eles me arrancam lágrimas.
SOBRE RADUAN NASSAR, PARA JULIA

O que mais gosto neste autor, pasme, é o fato dele ter afastado-se definitivamente da literatura. Diz que o silêncio o elegeu e esta qualidade de silenciar é a que mais admiro em um inquieto. Afastou-se da literatura por paixão a ela e por acreditar que existe um excesso de verdades no mundo.
Hoje planta feijão e milho de pipoca no interior de São Paulo.

Leia "Lavora Arcaica", "Um copo de cólera" ou "Menina a caminho."

terça-feira, 17 de outubro de 2006

MÃOZINHAS DE SEDA

"Mas só dias antes do baile, apesar de curtido por meses, é que as moças de Pindorama iam às farmácias e, entre acanhadas e ar distraído, davam fim ao estoque de pedra-pome. Era uma pedra cinza e porosa, vendida em tamanho pouco maior que um ovo de galinha, embora amorfa, que elas então friccionavam na palma das mãos para eliminar calosidades. E se aplicavam no trato da própria pele de tal modo que seus eventuais parceiros, durante o baile, tivessem a sensação de tomar entre suas mãos de príncipes encantados verdadeiras mãozinhas de seda de suas donzelas."

Já que falávamos de Raduam Nassar selecionei esta passagem singelíssima. Leia ouvindo Dick Farnei, embora a obra de Raduam às vezes peça uma ópera.

DESCOBERTA DO MUNDO

Nesse feriado eu fiquei o tempo todinho com a Lola e com os bichos. Ela sentindo cada um deles. Passando a mão, correndo atrás, observando com espanto o olhar daquelas criaturas. Foram vacas, galinhas, pavões, gatos, ovelha... e os cachorros. Gostei de ver a pequena observar bem de perto a boca grande do Sivuca, seus dentes enormes, seu latido rouco. E sem medo nenhum tentar pegar a língua dele com seus dedinhos mínimos. E com estes mesmos dedinhos e muita concentracão, já cansada no fim do dia, brincava de capturar meus cílios, rosto bem coladinho no meu, respiração com respiração, coração com coração. Mas de repente me deixava deitada lá no tapete e se punha em pé a imitar os bichos. Mumu, auau, anhanha.

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

UM AMIGO DE PARTIDA PARA NY

Vou viajar hoje sem nenhum entusiasmo para um lugar onde os aviões teimam em cair sobre os edifícios.

terça-feira, 10 de outubro de 2006

CAT IN THE RAIN

"The wife liked him. She liked the deadly serious way he received any complaints. She liked his dignity. She liked the way he wanted to serve her. She liked his old, heavy face and big hands. Liking him she opened the door..."

Este é um pedaço do texto que vimos hoje na aula de inglês.
Hemingway, embora pareça simples, recheia sua obra de significados. Pensar neles em inglês é deixar a sensibilidade solta num mar de possibilidades e encontrar conclusões que eu nem sabia que existiam em mim.

segunda-feira, 9 de outubro de 2006

DOM CASMURRO

"Não consultes dicionários, Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo"
Assim começa Dom Casmurro e meu amor pelo Machado de Assis.
Li este romance quando estava na escola, mas folheando o livro um dia desses para encontrar o nome do amigo de Bentinho, possível amante de Capitu, é que entendi que só hoje estou pronta para entender seus "olhos de ressaca" e todas as outras genialidades escritas tão elegantemente.
O Machado é muito fino. O Paulinho da Viola dos escritores. O mais elegante desde 1900.
Vale a pena reler.
Áh, e para os curiosos: o nome do amigo de Bentinho é Escobar.

domingo, 8 de outubro de 2006



PRESENTE

Quando a Lolô fez um ano ganhou muitos presentes, mas os que mais me emocionaram foram o álbum de fotos que a Gigi fez contando toda a história da vida da pequena e esta gravura que ela ganhou da bisa. Dona Maria Caldeira, 86 anos, fez o papel, desenhou, pintou e escreveu uma singela dedicatória.
Com esta mesma delicadeza faz sua arte naif e acabou de expôr sua obra na Bienal de Piracicaba. Usou para a ocasião um conjunto branco todo florido. Dentro dele, me parece, passeou por lá toda prosa.

UMA MOCINHA

Um dia desses olhando a Lola dormir me peguei falando "benza Deus, que mocinha." Foi ontem que ela nasceu e agora já até sabe mangar da gente. Toda debochada sai imitando nãnãnã e faz não com o dedinho. E vai lá desligar a televisão, depois bate a palminha da mão na coxa, fingindo estar perplexa com aquele incidente.
Gosto de ver ela dar chupeta, mamadeira, cheirinho e um monte de beijinhos na nenê dela.
E gosto mais ainda desse sorriso que ela dá com o olhinho bem amendoado.
Ontem fiz um álbum. Escolhi todos os instantes que poderiam durar para sempre. Na maioria deles estava a Lola e sua risada.

sábado, 7 de outubro de 2006


LOLA E TOM.

Cum, Cum, Lola fala toda vez que vê o Tom. E agora deu de bater palmas e gritar Ieiê! Iêiê! Que quer dizer Gigi! Gigi!
É que eles são amigos de longa data.

sexta-feira, 6 de outubro de 2006


MEIAS

Ganhei ontem um par de meias da Fefê, recém-chegada de Nova York. Meias de ficar em casa, sobre as quais não de põe sapatos. Meias bem fofas, cor-de-rosa, macias, gordas, aconchegantes. Quando vesti-las estarei provavelmente de moletom, prestes a deitar no sofá num domingão para ler Dom Casmurro, ver dvds do Cocoricó ou contar histórias para a Lolô.
Muitas pessoas que eu amo amam meias.
Eu amo também.
Meias são singelas.

quinta-feira, 5 de outubro de 2006


E POR FALAR EM CECÍLIA, 4o. MOTIVO DA ROSA


Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.


E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.

quarta-feira, 4 de outubro de 2006

CECÍLIA

Outro dia o Tin me disse que se tivéssemos outra filha, ela poderia se chamar Cecília.
Gostei na hora, pela Cice, pela Cecilia Meireles e pelo o que o Chico Buarque disse sobre este nome:" Cecília é mais simples ainda. É um nome que não se diz, é um nome que se sussurra, é um nome que se cicia. Cecília é isso."
Que candura!

UM SEGREDO

Tem um lado meu que queria ser bem prendado em afazeres domésticos. Adoro a idéia de cozinhar o doce espera-marido e esperar o marido com ele pronto. E ter um monte de filhos e bordar em ponto-cruz o nome deles nas fronhas. E em ponto- cruz também fazer quadrinhos como os que a Frida Kahlo fazia: "Aqui mora uma família feliz " e "Diego, mi amor". Faria tear esse meu lado, sempre com olhos de esperança. Sentaria na varanda e falaria com as flores. Teria roseiras lindas. E cadernos de receitas escritos a mão. A paixão desse meu outro lado seria o balé.
Mas eu fiz tudo diferente.


PRÁ QUEM NÃO SABE SÔ RIO

Às vezes no trabalho ou no trânsito gosto de descansar o pensamento em algum lugar.
Imagino o mar do Rio de Janeiro, o céu azul, o Morro Dois Irmãos.
Posso sentir aquela água gelada e a Lolô experimentando a vertigem que a gente tem quando as ondas vão e vêm.
Os instantes, eternamente os instantes.

terça-feira, 3 de outubro de 2006

CLARICE E CHICO

Até a Clarice Lispector queria trocar literaturas com o Chico.
Certo dia pediu que ele escrevesse um poema para ela enquanto ia até a cozinha. Ele ficou aflito e assustado, mas veja que singelos versos criou: “Como Clarice pedisse/ Um versinho que eu não disse/ me dei mal/ Ficou lá dentro esperando/ Mas deixou seu olho olhando/ Com cara de Juízo Final).
Ai, esse homem me mata!

CHICO BUARQUE

Acabaram os ingressos e eu não fui ver o Chico Buarque dar o ar da graça aqui em São Paulo. Ai que raiva! Li hoje uma matéria na Vejinha Rio comentando o show e a reação das mulheres nesse show. Eu já fui em outros e sei que é verdade.
As mulheres se levantavam e gritavam frases eróticas para ele, enquanto seus maridos as assistiam. Uma loucura.
O jornalista que escreveu a matéria jurou que no dia em que ele foi, uma mulher aproveitou o silêncio entre uma música e outra e gritou: - Chico, quero dar prá você!
E o Chico com sua modéstia disse que isso é tudo tiração de sarro.
Até parece.

UM SÁBIO DE OITO ANOS

O Gabriel é filho do Flávio meu amigo. Indignado com o resultado das eleições escreveu o nome do Maluf, Collor, Enéias e Clodovil em um papel, abaixo anotou quantos votos cada um deles teve. Acrescentou um desenho com chifrinho em um, um chapéu de bandido em outro, escreveu em baixo: "Oh may God!" (sic) e levou para a escola. Queria protestar o que os adultos andam fazendo com este país.

segunda-feira, 2 de outubro de 2006


FABIO JUNIOR

E fomos nós ao show do Fabio Jr. Fiz questão de levar a Adri, babá da Lorena, que gosta muito dele e mais ainda de gente famosa e muito mais da idéia de ir ao camarim da pessoa famosa. Eu não gosto de camarim. Nunca gostei. Nesse show, por exemplo, passei o tempo todo no alto do camarote, ouvindo ele cantar que "quer uma mulher que seja diferente e disse para eu sentar lá, e que gosta da covinha que aparece quando eu rio, e quer saber o que está se passando na minha cabeça...aí o show acaba e vamos ao camarim. E aparece Fabio Jr, bem de carne e osso, sem nenhuma cara de alma gêmea.
Camarim nunca mais. Tirei uma foto dele com a Adri e fui.