quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

UM CHEIRO

Dar um cheiro em quem a gente gosta é uma atitude instintiva. Fica-se olhando para o ser amado e pumba, cheira-se o cangote, o pescoço, bem atrás da orelha. O rosto também dá vontade de cheirar.
Quando tem-se um filho, a gente cheira ele todo. A toda hora. Às vezes a gente chega em casa e o nenê está dormindo. O jeito é entrar no quarto na ponta dos pés, na ponta dos pés ainda debruçar-se no berço e com a maior delicadeza dá-se duas fungadinhas nele.
Minha memória olfativa é impressionante. Se penso em alguém que não vejo há muito tempo a lembrança do cheiro daquela pessoa me vem imediatamente.
Cheiro dá saudade.
O cheiro que está por trás dos perfumes, dos talcos e das lavandas. O cheiro que a gente não cheira, mas sente sem querer.
O cheiro dos amigos da natação, misturado com um pouco de cloro. O cheiro da nossa casa em Assis. Cheiro da casa da vovó Martha. Cheiro dos táxis em Nova York. Cheiro dos franceses. Cheiro do Dr Sang. Cheiro da casa do tio Jango. Cheiro da Bruna criança, doce como o olhar que ela tem até hoje. Cheiro do moletom preto que a Gi me emprestou num dia de frio. Cheiro do inverno no Xereta, quando a gente deitava na grama para se esquentar no sol. Cheiro do apartamento da rua Madalena, das roupas da Fefê. Cheiro do Tintin chegando da filmagem. Cheiro dos trigêmeos e do Dobló da Cice. Cheiro da casa da Loira, na JV da Cunha e Silva e que, me causa surpresa, permanece até hoje lá no Morumbi.
Gosto também desse cheiro que estou sentindo agora. O cheiro da minha casa.

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