quarta-feira, 31 de outubro de 2007


CINE PEDUTTI

Quando a gente estava virando mocinha em Assis o grande programa que existia era ir ao cinema. Havia um só. Subíamos um lance de escadas para comprar os ingressos. Ali já se via toda a garotada de cabelos molhados de lado. Os perfumes dos meninos da época eram Styletto e Azarrô. As meninas usavam Giovana Baby ou Taty. No bolso e nas bolsinhas carteiras da OP com velcro, onde guardava-se o dinheiro das entradas, das balas e até, porque não, do cachorro-quente na saída.
Na bomboniere comprava-se as tais balas e disso ninguém escapava. Mentex, frumello ou xita, que já vinham em saquinhos com cinco unidades. Naquele foyet começava o sofrimento de toda a garotada. O filme ia começar e era preciso dar um jeito de sentar perto do paquera. Havia poucos minutos para armar toda a estratégia: a turminha de meninas encontrar a turminha de meninos, todos sentarem juntos parecendo que por acaso, e por Deus, cada um ao lado do seu par.
No meio do filme os meninos pediam as meninas em namoro ou então as meninas davam respostas se queriam ou não namorar os meninos. Resposta que levava sempre uma semana para ser dada, normalmente recebia-se o pedido na quinta e respondia-se na outra quinta, no cinema, é claro.
Na tela Indiana Jones, Os caça-fantasmas, Alien, Xanadu, Os embalos de sábado à noite, Purple Rain.
E olha, agora mesmo posso assistir a esta cena: eu sentada e o menino que eu gostava ao lado. Luz vinda da tela, mas toda a atenção não está no filme, mas sim no braço da cadeira. Devagar avança-se milímetro a milímetro a mão. Eu a minha, ele a dele. Até que elas se tocam. Dentro do peito o coração dispara e as maçãs do rosto ficam quentes, fervendo. Um tempo depois faz-se um pequeno movimento para mostrar que o encontro das mãos não foi à toa. Esse foi com o dedo indicador que ia e vinha bem devagarinho sobre a minha mão. Frio na barriga.
Mas é hora de trocar o rolo do filme. É, isso existe. Intervalo de quinze minutos. As luzes se acendem e toda a garotada sobe para a bomboniere, faz fila no bebedouro, vai ao banheiro e repõe as balas.
Voltamos e foi preciso começar de novo.
Naquela sessão, a apoteose foi quando o menino tomou a atitude de pegar na minha mão de verdade. Apertá-la. Colocar perto do peito. Pensei assim: isso é um homem. E eu sou sua mulher agora.
Naquela noite foi só isso. E depois vieram outras mãos e outros homens.

2 comentários:

  1. Oi Ana,

    há um tempo atrás eu descobri o seu blog e sempre que da eu venho ler...
    Eu me lembro de vc e acho que vc de mim.
    Eu estudei no xereta e era uma turma mais nova que a sua.
    Enfim, estou para te escrever há um tempo, mas na minha correria sempre fica para mais tarde e assim se passam semanas.

    Adoro ler "suas lembranças" e me faz lembrar de muita coisa boa tb.

    Bem, agora tenho que voltar ao trabalho.

    ah... antes que me escqueça.
    Quem eu sou?
    Patricia
    nas épocas de Xereta: Costa e desde de 1992: Meyer.
    se lembra?
    um grande abraço e uma ótima quinta feira.

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  2. Ana, assim como a Patrícia divido contigo estas memórias. As tarde do recadinho, as festas no Porão, a pizza no Fornalha, os lanches no Flipper e, é claro, o Cine Pedutti, sua pesada cortina de veludo vermelho, e os assentos desconfortáveis, mas quem se importava?
    Sempre que posso venho aqui me abastecer de alguma singelice.

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