LEMBREI
O Zé Eduardo é meu amigo das antigas. De quase vinte anos atrás. Amigo de quando eu era adolescente (e ele já era um homem barbado). O Zé sempre quis que todos a sua volta se sentissem bem. É aquele tipo que torcia para o Bagá, nosso amigo que tocava MPB nos barzinhos de Assis, cantasse a música que todos gostassem para todo mundo cantar alto junto com ele, e que nossos pais nos deixassem sair, e que as piadas fossem boas para arrancar gargalhadas na mesa e que toda a galera se encontrasse, e que houvesse festas e eventos para que a gente curtisse a vida ao máximo. Sua casa de Assis estava sempre aberta. Lá ele juntava os amigos e graças a isso tivemos os melhores carnavais das nossas vidas, já que a casa da XV de novembro era um QG da galera de São Paulo, misturada com a de Assis numa química inacreditável.
Quando mudamos para São Paulo o Zé veio também.Vendeu mousse com a Toty, fez pós no Mackenzie. Fez minha prova de estatística também. Sempre dormia em casa e nossa intimidade era tanta que ele pegava os tênis da Toty emprestados e ficava puto quando a gente ia na casa dele e acabava com as rosquinhas e as tubainas que a dona Catarina mandava de Assis. Eu, o Zé e a Toty não nos desgrudávamos.
Corta a cena.
Mostra a vida passando. O Zé se casou, mudou para o Rio, teve filhos. Eu me casei e virei mãe. A Toty se casou. A Dani veio trabalhar comigo, o Zé praticamente virou o marido da Dani pra mim e nós passamos a nos falar (religiosamente) nos aniversários e conviver socialmente, nos vendo muito menos do que poderíamos. Durante anos e anos.
Corta novamente. Entra em cena nosso encontro de ontem no shopping Vila Lobos.
Sentamos todos no Ráscal para uma pizza. E lá estava o mesmo Zé, agora querendo que os seus filhos se divirtam e sejam felizes. Chamando a mãe da Dani de "minha sogra". Radiante cada vez que via que a turminha de crianças se entendeu, fotografando os bons momentos dos pequenos na casa do Papai Noel, preocupado se Claudinha, a babá dos filhos dele estava comendo e bebendo e sentada.
Terminamos a noite assim: - Pô Zé, queria tanto ver o show do The Police.
E a Fê Jabur, que estava conosco como nos velhos tempos, respondeu:
-Eu quero que o The Police exploda em mil pedaços. Vou no show fazer o que? Angariar fundos para o azilo deles?
E o Zé soltou aquela gargalhada gostosa, lotou o carro com sua família e foi embora feliz da vida que eu sei.
Ontem eu relembrei porque eu gosto tanto do Zé.
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