domingo, 30 de setembro de 2007

O LADO B DO RETIRO

Fefet foi ao retiro e como não poderia ser diferente levou para a turma do sarongue risadas inesquecíveis.
Curiosa, meteu-se em tudo, praticou tudo, fez a limpeza, fez amigos.
Fefet deixa explícito que a vida é feita de rituais e risadas, mitos e desmistificações. Rir de si mesmo é a grande sabedoria humana.
Ela cagou de rir dela mesma.
Acabou o retiro com todo mundo chamando o Ary de Arit.
E sentando para tomar um cafet.
Coisas de Fefet.
RETIRO

A comida é vegetariana, acorda-se às seis da manhã para praticar yoga. E pratica-se novamente às dez e às cinco da tarde.
O lugar é silencioso. Lá não tem telefone, nem internet, nem televisão.
Fala-se de Ganesh, te Shiva e de aceitar o que é. Fala-se sobre não resistir mas não segurar o pensamento. A dor passa, a alegria passa.
Os mantras alegram meu coração.
Eu sei viver assim, acho que de outras vidas.




FOI BONITA A FESTA

A casa estava bonita, iluminada, florida e feliz. As amigas chegavam, muitas, contentes e enchendo de alegria os setenta anos da minha mãe. Vinham de coração aberto desejando nos olhos tudo de bom para a amiga.
Minha mãe estava linda, satisfeita e cheia de saúde. Recebia os abraços, aceitava as homenagens, obedecia aos rituais que envolviam a entrega de setenta rosas vermelhas, uma vinda de cada convidada, incluindo a mais novinha delas com seus dois anos de idade que entrou na fila das rosas duas vezes.
A festa tinha ritmo e graça.
A mesa estava farta, cheia de comidas árabes, tradição em nossa casa.
Na sala só mulheres. Os maridos não foram convidados e o papai respeitou a regra e ficou no quarto bem orgulhoso daquele dia tão bonito. Tio Nis e tio Mundo vieram à tarde dar um discreto abraço na irmã.
Tia Cristina usou um vestido longo e estava radiante. Tia Lucia mandou fazer de lembrança os cds da festa. O set list incluia Roberto Carlos, Luis Miguel, Zeca Pagodinho, Gloria Gaynor e outras ecletices.
Eu estava lá com toda aquela gente que fez parte da minha infância.
Eu estava lá com a minha mãe, uma moça completando setenta anos. Eu estava era muito feliz.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

FELICIDADE

Coluna ereta, mente tranquila, respiração serena e coração em paz.
ESTÁ TUDO EM PAZ

O obstetra: -Estamos de quantas semanas?
Silêncio.
Não sei. Perdi as contas. Não fico fazendo pauzinhos no calendário. Não li nada sobre gestação. Não penso se as unhas dela já nasceram e quanto mede seu fêmur hoje.
Simplesmente vou vivendo, ela mexe aqui dentro, eu faço um carinho na barriga. No carro ponho músicas para ela ouvir.
E na yoga, naquele momento chamado Sankalpa, quando se afirma três vezes alguma coisa, repito que a Manuela chegará ao mundo de forma suave, tranquila e feliz.
Adoro também saudar como os yogis a bebê que eu espero. Namastê. Meu deus interior saúda o seu.
O obstetra:
- Alguma pergunta?
Silêncio.
- Não, nenhuma.
- Nenhuma?
- Hum, hum, está tudo em paz.

MAIAS

Tem um assunto me incomodando. A quantidade de coisas que estão por vir e me deixam com dificuldade de me ligar ao presente. Daqui a pouco eu mudo de casa, daqui a pouco a Manu nasce, daqui a pouco eu estou de licença, daqui a pouco eu penso nisso.
Ilusões. Só hoje importa.
Quem me salva é a Lolô. Quando estou com ela me entrego ao presente e ao instante. Com a Lolô não há pensamento, há somente nossa troca. Ontem mesmo fui jantar com a Branca de Neve e só falamos sobre os sete anões.
DEDOCHES

Um jacaré, um macaco, uma girafa e um leão, um em cada dedo da minha mão.
E a Lolô conversando com eles assuntos particulares, que eu inclusive não podia ouvir: jacaré, sabia que eu quebei aquela mulher ali, a gávida, e a mamãe ficou tiste, sabia?

sexta-feira, 21 de setembro de 2007


ME GANHOU

O Cabral chega quietinho e vai embora quietinho. Trabalha aqui com a gente sem nunca fazer alarde nenhum, mas sempre pesquisando, ilustrando, dando umas dicas tão despretenciosas que você quase não acredita que são muito boas.
Ontem ele passou a madrugada com uma vassoura limpando o túnel Ayrton Sena com a mensagem: vá sem carro. Era para incentivar que os motoristas aderissem ao movimento Carbon Free do dia 22.
A polícia parece que apareceu por lá e ele e o amigo disseram: mas isso é uma vassoura e eu só estou limpando.
Hoje virou capa da Folha.
Eu virei fã.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

CONDIÇÃO

Eu dou tudo. Mas não gosto que me peçam tudo.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007


A PRINCÍPIO, A IMENSIDÃO DOS OUTROS

Saí correndo para um almoço. Falaríamos de trabalho.
Mas o bom da vida é que quando não se espera nada de alguma coisa, é quando a coisa te dá.
No almoço vi bem de perto alguém que viu bem de perto o infinito. Quem esteve só no deserto, esteve só no gelo, esteve só no meio do oceano e vive em contato com a natureza casta e intocada.
Eu tenho medo da imensidão e gosto somente de pequenos intervalos de solidão.
Os lugares inóspitos me assustam e ver com meus próprios olhos o que é belo demais aperta meu coração.
Acontece que com essa conversa, me lembrei. Me lembrei que somos breves. Me lembrei que diante da natureza você não tem querer. Lembrei que quando se depara com o imenso se pergunta: pra quê?
Mas no fundo acabei percebendo que quando olho um bicho existindo sinto tudo isso.
É preciso contemplar, mesmo que seja somente o rio da nossa aldeia. Ele conta a história de todos os rios do mundo.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

GERÂNIO PARA A MANUELA

Ouço esta música e fico tão eufórica.
Grávida, imagino um jeito de levar a vida que a Manu pode muito bem escolher para ela.

"Ela que descobriu o mundo
E sabe vê-lo do ângulo mais bonito
Canta e melhora a vida, descobre sensações diferentes
Sente e vive intensamente

Aprende e continua aprendiz
Ensina muito e reboca os maiores amigos
Faz dança, cozinha, se balança na rede
E adormece em frente à bela vista

Despreocupa-se
e pensa no essencial
Dorme e acorda

Conhece a Índia e o Japão e a dança haitiana
Fala inglês e canta em inglês
Escreve diários, pinta lâmpadas, troca pneus
E lava os cabelos com shampoos diferentes

Faz amor e anda de bicicleta dentro de casa
E corre quando quer
Cozinha tudo, costura, já fez boneco de pano
E brinco para a orelha, bolsa de couro, namora e é
amiga
Tem computador e rede, rede para dois
Gosta de eletrodomésticos, toca piano e violão
Procura o amor e quer ser mãe, tem lençóis e tem
irmãs
Vai ao teatro, mas prefere cinema

Sabe espantar o tédio
Cortar cabelo e nadar no mar
Tédio não passa nem por perto, é infinita, sensível,
linda
Estou com saudades e penso tanto em você"

(Nando Reis e Marisa Monte)

domingo, 16 de setembro de 2007




TODA SEGUNDA DÁ UMA SAUDADE DO DOMINGO


REGISTRANDO ESSA GRAVIDEZ

Lá se vão quase seis meses.
ESTRANHA PRIORIDADE

Tem hora que nada importa mais do que tirar um pêlo encravado.
ESTAVA FALTANDO ALGUMA COISA

Era um abraço.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

TENHA DÓ

Por pura barbeiragem outro dia eu raspei meu carro na coluna do prédio. Eu acho que, assim como as uvas passas e os cachorros com abajur no pescoço, carros pretos com marcas de coluna estampadas são carros humilhados.
E para piorar TODOS os manobristas que pegaram meu carro desde então fazem a mesma coisa:
- Bom dia.
- Bom dia... Moça, moça! Você viu este ralado aqui?

E quanto mais eles fazem isso, maior fica a distância entre mim e o funileiro.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

QUE COISA...

Eu chorei de ficar com nariz de rena hoje assistindo a novela. Solucei, enfiei a cara na almofada, contagiada pela história de amor da prostituta com o vigarista.
Esqueci totalmente que eu não era a Bebel e não era eu quem estava dizendo aquelas coisas para o Olavo.
Eu voltei com o Olavo inclusive, depois da briga do calçadão. Estava absorta, parecendo a tia Adib que não distinguia realidade de ficção.


TRÊS DE QUATRO ANINHOS

Hoje os tri-queridos fazem quatro aninhos.
Quando eu decidi ser mãe e coloquei essa idéia da minha vida veio a Cice com a notícia. Grávida. De trigêmeos.
E eu gravitando em seu barrigão.
Foram meses daquele milagre virando verdade. A barriga fora do propósito e o bicho Cice sempre sorrindo, abrindo as portas, descomplicando tudo.
Nasceram. Ganhei de presente a Tutu para batizar, menorzinha de todas, com seus mini-olhinhos de jaboticaba.
E ganhei também minha maior inspiração para ser mãe.

TOMTOM

Todo dia a mesma coisa. Tomtom sorridente, andando a galopes, fechando os olhos pra rir, com as sobrancelhas herdadas, o olhar compenetrado, o deixa pra lá em qualquer disputa de coisas mundanas.
Todo dia a mesma coisa, aquela voz rouca inventando musiquinhas. Êti, mamai. Êti, Lolô.
Sempre a mesma coisa, todo mundo querendo pegar o Tom, morder, cheirar, abraçar. E ele não se importa.
As crianças querem levar o Tom pra casa, querem dar a mão para ele, querem abraçá-lo bem forte.
Quando o Tom vai embora a gente morre de saudade.
Olha, eu amaria o Tom mesmo que ele não fosse filho da Gi e do Rodrigo. Se eu o conhecesse brincando na areia da pracinha.
EU QUERIA

Que a CIA das Letras tivesse me mandado para S Petesburgo, ou Lisboa, ou Praga, ou Toquio, ou Buenos Aires para falar de amor. Eu gosto de de falar de amor. Eu amaria ganhar para falar de amor.
O projeto Amores Expressos mandou dezesseis autores para dezesseis diferentes destinos para que eles desenvolvam um romance sobre o "amor".
Os livros começam a ser publicados até o final do ano.


www.amoresexpressos.com.br
LEVAR COM GRAÇA FAZ TODA A DIFERENÇA

Melhor e-mail do dia:

Digníssima, douta, preclara, sapiente, musa calipigina, iluminista, inspiradora, madona, mádi, bem aventurada, bondosa, beldade, mãe, aquela que tudo percebe, amiga de poucos e querida de muitos.
Boa tarde.
Vou ver quem poderia fazer um sol para a senhora e colocá-lo em funcionamento dentro da água no próximo verão . Deus, que é um craque nesse tipo de serviço anda meio ocupado por conta dos acidentes aéreos  mas a senhora sabe, com falsa modéstia, também já fiz meus milagres...

A resposta:

Meu querido amigo, o midas, aquele que tudo pode, o garboso, bem apessoado, conhecedor do belo, do elevado, do estético, do perfeito e do primoroso, humanista, mestre, mecenas, requintado, batuta, querubim, amigo de muitos, querido de muitos,

suas palavras foram um deleite, um regalo, um regogizo para o meu dia.

Agradeço imensamente vossa atenção, não sem antes me desculpar pela minha tacanha colocação. Uma obra de arte não poderia jamais ser tratada assim.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Escrevi um post. Achei que havia palavras sem função no texto.
Fui cortanto uma a uma.
Sobrou nada não.

O CIRCO

Eu gosto de circo. Da tenda vermelha, do respeitável público, do picadeiro chamar picadeiro, das arquibancadas, do palhaço, do malabarista que joga fogo pra cima, dos trapezistas concentrados, dos tambores, das músicas, do público de riso fácil e aplausos fartos, da coisa acontecendo ali ao vivo.
Ontem teve o Tin, cabeça para cima, olhando o trapézio, sobrancelha meio franzida, tendo oito anos de idade. Teve pipoca, palhaço roubando nossa água e perguntando se eu estava grávida dele, teve a Lolô chorando com grande beicinho, porque tinha medo do equilibrista cair.
No circo só existe o circo.
SILÊNCIO POR FAVOR

Já me expliquei muito nessa vida.
Parei de dar explicações. Principalmente para as pessoas que estão em outro patamar, naquele que já pode ser não-verbal.
Prefiro deixar que as coisas venham e vão, e o mundo se explique por ele mesmo.
SANDALINHAS

Quando a casa faz silêncio e a noite fica bem escura, encontrar um par de sandalinhas vinte e dois cansado de brincar, esquecido no canto da sala, é um amor.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

BILHETE

Se tu me amas,
ama-me baixinho.

Não o grites de cima dos telhados,
deixa em paz os passarinhos.

Deixa em paz a mim!

Se me queres,
enfim,

tem de ser bem devagarinho,
amada,

que a vida é breve,
e o amor
mais breve ainda.

Mário Quintana

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

SEU NAUEF

Bem pequena na casa da minha avó vivi momentos de deixar qualquer menina de seis anos sem fôlego.
Era aquele árabe joalheiro que chegava com sua misteriosa bolsa preta da qual saiam os ouros vindos do Líbano. Pulseiras muitas, pedras fartas, broches, anéis, alianças, todos de uma cor de jóia de outras terras, meio avermelhadas.
Eu não entendia bem o quanto aquilo valia, embora relacionasse com um tesouro, portanto esplêndido. A experiência era puramente sensorial. As pedras mais quentes que os metais. As pulseiras juntas tilintando. Os brilhantes, brilhando. Os nomes dramáticos: solitária, camafeu, rubi.
E tinha a Titá eufórica, experimentando tudo e querendo juntar os dinheiros das aulas para ter as jóias, uma por uma.
SAUDADE

Um dia, já tem uns dez anos, fui parar em uma enorme casa branca de esquina de onde apareceu um médico velhinho de olhos rasgados e rosto sincero perguntando o que eu tinha.
Eu mesma não sabia explicar. Tinha que fazer uma limpeza, tinha que pôr alguma coisa pra fora, tinha que mudar tudo, tinha que aprender a viver, tinha que encontrar respostas. Respondi que tinha rinite.
Ele pegou o meu pulso e ficou olhando pra mim. Eu desandei a chorar por minutos, pode ser que tenha sido por uma hora.
Estava feliz ao mesmo tempo por ter encontrado aquele que foi uma das pessoas mais importantes que passaram pela minha vida. Por anos a fio fui estar com Dr Sang e suas agulhas. Abria a porta e ele dizia: porque tristo? como contente? porque bravo?
Para a rinite e outras ites, me tratou com acupuntura. Para a vida me tratou com carinho e palavras, poucas, mas repetidas diariamente, como um mantra. Tenha um sonho no coração e joga fora o pensamento.
Ao lado dele mudei de emprego, de casa, de namorado. Mudei meus hábitos, minha cor, meu cheiro, minha respiração. Mudei meu sono, meus sonhos, minha noção de felicidade, de responsabilidade, de simplicidade, de coragem.

Um dia chegeui à casa branca e o portão estava fechado. Dr Sang morreu.

Tenho saudade. Mas sei bem reconhecer minha parte que é ele. Morre-se, mas fica-se.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

TUDO NOVO

Estou com a síndrome de me desfazer do que não preciso.
Não aguento as fitas VHS, as revistas VOGUE que tenho dó de jogar, as roupas que quem sabe um dia. Quero dar fim em tudo. O que mais me dói são os textos. Em papéis, em formas de bilhetes, em arquivos.
Mas quando você percebe qual caminho deveria seguir a vida te empurra para ir em frente. Acabamos de sair de uma reunião:
segunda-feira nossa caixa de e-mails estará zerada. Adeus mil e oitenta e quatro e-mails.
Quando soube da notícia passaram textos, pessoas, fotos, imagens, poemas, anos, alegrias, tristezas, declarações de amor, de amizade, de carinho, broncas, reflexões, discussões literárias. Confesso que trabalho foi o de menos.
Mas, que alívio. Alguma coisa estará limpa, vazia, pronta para recomeçar na segunda.