sexta-feira, 16 de maio de 2008

EU E DEUS

Até mudar para São Paulo nem sabia que existia outra formação religiosa que não a minha. Não conhecia ateus, nem agnósticos. Os kardecistas em Assis eram poucos, aliás, que eu me lembre era somente o João Leão, amigo da Alina. Budistas não existiam. E as outras igrejas ainda não tinham proliferado.
Fiz anos de catecismo na casa da dona Neide Spinardi, tendo como colegas Loira, Fefê Jerônimo, os gêmeos João Marcos e Marcus Alexandre, Maria das Graças e um menino chamado Ricardinho que desistiu do catecismo na véspera da primeira comunhão para fazer judô, o que, confesso, achei muita graça. Depois da primeira comunhão continuei indo à igreja todo domingo e frequentando aulas de "perseverança," das quais não me lembro de nada, a não ser que dona Neide girava uma bic entre as mãos, fazendo um barulho engraçado cada vez que a caneta topava com sua aliança. Me lembro também que ela servia religiosamente um bolo. Bolo, bolo, sem recheio, sem nome, mas macio e saboroso e eu às vezes derrubava umas migalhas desse bolo sobre o meu caderno.
Me lembro que na Oração Salve Rainha tinha a palavra "doçura". Que achava esquisito o Credo chamar Credo. Que gostava da palavra oferenda, que achava fabuloso a Virgem Maria ser mãe de Jesus mesmo não sabendo o que significava a palavra virgem. Na missa, sentia até um frio na barriga quando Monsenhor dizia: "eis o mistério da fé." Me lembro tão pequena andando naquela catedral enorme, pondo meu dedinho numa água que era benta e depois passando a água atrás da orelha como se fosse uma colônia. Me lembro quando uma luz meio roxa se acendia em uma capela dentro da catedral dando sinal que o Espírito Santo estava ali. Não sei bem o que isso queria dizer, mas era acender a luz que eu corria lá para rezar, com um pouquinho de medo do "Espírito" me pegar, mas acreditando que sairia de lá poderosa.
Sei que uma vez, não sabia bem o que pedir na minha oração, então desejei que ninguém nunca me achasse no pique-esconde.
Aí me inscrevia para fazer gesto lá na frente na missa das crianças. Ficava eu e mais uma ou duas amigas fazendo gestos para os mini-fiéis copiarem: e punha as mãos para frente, depois para o alto, depois falava da parreira de uvas com um gesto que saía do coração e ia para as alturas. Depois vinham aquelas coisas que a gente tem de falar intercalando com o padre, essas eu também dizia abrindo bem a boca para mostrar que eu sabia decor: "é nosso dever e nossa salvação. Glória a vós Senhor."

Tanto mistério! A sacristia, o nome sacristia, aquele confessionário no qual o padre ficava de um lado e o "pecador" de outro. Tá certo, o padre não via a cara dele, mas o resto da igreja via a pessoa humilhada, saindo daquele móvel ancestral pronto para cumprir a pena: rezar terços e terços.

Uma vez um amiguinho nosso da escola, o Fernandinho Costa, descobriu que estava com uma terrível doença e ia morrer. Minhas amigas tiveram a idéia de ir conversar com o padre para salvá-lo. O padre nem as orações salvaram nosso amiguinho e eu bem criança acabei notando que tinha minha própria religiosidade, que nada tinha a ver com aquela.

Mas agora tenho minhas filhas, sem nenhum condicionamento, com seus coraçõezinhos em branco, criadas como o pai delas, sem saber que tudo isso existe.
Fico em paz. Nossa espiritualidade é inata e se manifesta sozinha, espontânea e pura.

PS: escrevi este post inspirada pela Guedes, que escreveu um texto ótimo sobre sua Via Crucis em Aparecida no www.vanglorias.blogspot.com

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