domingo, 22 de junho de 2008

BATEU UM VENTO E EU ME LEMBREI

Tempo da delicadeza foi aquele.
A vovó Martha fazendo ovos quentes de manhã. E sempre deixando no parapeito da janela ao lado da minha cama, para eu comer antes de me deitar, três bolachas de água e sal e um copo de leite com açúcar. Me lembrei do tio Nis em cima da cadeira arrumando o relógio cuco. Me lembrei do cheiro de um perfume chamado Jontue que a Titá usava. Senti o peso do espelho que ficava sobre a penteadeira dela, lindo, de metal muito antigo. Fiquei viajando com a memória daquele sobrado. O quartão de canto arredondado que pertenceu aos meus avós e me causava fascínio e medo. O mistério dentro das gavetas trancadas à chave porque guardavam as jóias da família. Me lembrei do lustre da sala de jantar, do chão de tacos, do banheiro enorme, de sair pela porta da cozinha e olhar um pequeno muro branco que separava as escadas de um telhado. Me lembrei da sensação de entrar em baixo da escada onde havia um fogão à lenha abandonado. Me lembrei de brincar de fazer café sentada na terra do quintal. Terra vermelha. Até do prato de barro onde a gataiada comia eu me lembrei. Tenho cada cena e cada cheiro registrado. O muro deixava nossa mão branca. Em cima dele havia cacos de vidros coloridos. Ao lado da roseira havia uma escada de três degraus que ia para o quintal. No banheiro da casa de baixo tinha uma máquina de costura Singer. Na segunda gaveta do móvel da sala, embaixo de um pano de prato, ficava a carteira preta da vovó, sempre com dinheiro miúdo dentro que ela nunca regulou. A mesa onde almoçávamos era de madeira bem rústica e tinha duas gavetas onde minha avó guardavablocos de papéis de seda, envelopes, canetas e cartas chegadas do Líbano. No móvel da sala de jantar, na terceira gaveta do lado esquerdo havia muitas bolas de bilhar que batiam umas nas outras quando a gente abria a gaveta. Eram do bar do vovô Assad.
E o melhor de todo esse tempo era chegar ao sobrado, tocar a campainha e ver aparecer um rosto na janela. Vovó, Titá ou tio Nis. Qualquer um dos três abria um sorriso e jogava a chave pra gente. Eu subia as escadas me achando sempre muito bem-vinda.
Soprou um vento trazendo esse lindo filme, em memória Super8.

Um comentário:

  1. Nossa Ana....vc me remete ao passado de uma forma tão clara!!!!!!Saudade de Matar!!!!...Ju Affonso

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