TIPOLOGIA
Quando era pequena havia uma placa na Avenida Rui Barbosa: Centro de Alergia. Mas eu lia: Centro de Alegria e não entendia porque alegria estava escrito com aquelas letras cinzas e sérias.
sexta-feira, 31 de julho de 2009
quinta-feira, 30 de julho de 2009
Vc pra mim é um solzinho radiante.
Destemperada.
Mas otimista. Digo, otimista na medida certa, porque otimismo em demasia vira idiotice.
“A tristeza é o mar e as ondas a felicidade” é lindo e triste.
Quero te ver.
Ninguém desaba em meu ombro. O que me deixa em pé é a imperfeição do mundo e o retalho feito de todas as pessoas que eu amo interpretando este mundo.
Destemperada.
Mas otimista. Digo, otimista na medida certa, porque otimismo em demasia vira idiotice.
“A tristeza é o mar e as ondas a felicidade” é lindo e triste.
Quero te ver.
Ninguém desaba em meu ombro. O que me deixa em pé é a imperfeição do mundo e o retalho feito de todas as pessoas que eu amo interpretando este mundo.
segunda-feira, 27 de julho de 2009
DIA ESPECIALÍSSIMO
Hoje é aniversário do meu pai. São 79 anos.
- Alô, pai? Feliz aniversário. Quantos anos, sessenta?
- Oi, não filha. 79.
- Ah, mas com corpinho e cabeca de cinquenta e poucos.
- Ah!
- E aí, vai ter um bolinho prá comemorar?
- Não porque eu e sua mãe estamos aqui com o rapaz.
- Que rapaz?
- O técnico da internet.
- Entendi. Então tá bom, seja muito feliz, tá?
- Viu filha, eu te quero muito bem.
- Eu também. Muito.
- Dia oito nós estamos aí para a festa da Loreninha.
- Venham sim.
Hoje é aniversário do meu pai. São 79 anos.
- Alô, pai? Feliz aniversário. Quantos anos, sessenta?
- Oi, não filha. 79.
- Ah, mas com corpinho e cabeca de cinquenta e poucos.
- Ah!
- E aí, vai ter um bolinho prá comemorar?
- Não porque eu e sua mãe estamos aqui com o rapaz.
- Que rapaz?
- O técnico da internet.
- Entendi. Então tá bom, seja muito feliz, tá?
- Viu filha, eu te quero muito bem.
- Eu também. Muito.
- Dia oito nós estamos aí para a festa da Loreninha.
- Venham sim.
sexta-feira, 24 de julho de 2009
Trabalho com umas sessenta pessoas. Meu radar capta longa distância. Um que está triste. Outro foi demitido. Outra está em uma reunião transpondo um imenso obstáculo que é a crise de pânico. Morde os lábios, está assustada mas consegue falar no book de apresentação. Um está preocupado com a filha que pegou trânsito. Uns fazem conta e pagam boletos. Tem o coracão de uma que foge para outro lugar e o corpo tem que ficar no trabalho, esquecendo de avisar ao rosto que é melhor disfarçar. Um queria aumento, outro queria férias, outro queria reconhecimento, outro queria ir prá casa.
Se pelo menos parasse de chover...
Se pelo menos parasse de chover...
NO CARRO COM MEU CHEFE
Vamos mudar do Brooklin, para uma casa, vai ser bom prá nós. Entrevistou? Ele vem? Demitir? Contratar? Alô? Não tem salsão? Faça sem, só com o gengibre mesmo, usando caldo de legumes. Merece uma adequação salarial. Sim, concordo, não discordo. Alô? Quanto de febre? Deu novalgina? Belladona, plus de hora em hora? Será que é gripe suína? Então, precisamos de mais clientes. FTE? Fee? Alô? Peeling? Era hoje? É, não vou, minha filha está doente.
Vamos mudar do Brooklin, para uma casa, vai ser bom prá nós. Entrevistou? Ele vem? Demitir? Contratar? Alô? Não tem salsão? Faça sem, só com o gengibre mesmo, usando caldo de legumes. Merece uma adequação salarial. Sim, concordo, não discordo. Alô? Quanto de febre? Deu novalgina? Belladona, plus de hora em hora? Será que é gripe suína? Então, precisamos de mais clientes. FTE? Fee? Alô? Peeling? Era hoje? É, não vou, minha filha está doente.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
ME OCORREU QUE...
Subo escadas contando degraus. Na risca não piso. "Pronto, falei" não falo. No teatro gosto das primeiras filas. Filme na pré-estreia. No avião: corredor. Descubro uma música e google a letra. Na mesa: o canto, na yoga o lado direito, na cama também. Às vezes me arrumo muito, em outras fico assim como hoje, esmalte saindo, tênis sujo e cabelos precisando de um trato.Mas de rímel, sempre.
Subo escadas contando degraus. Na risca não piso. "Pronto, falei" não falo. No teatro gosto das primeiras filas. Filme na pré-estreia. No avião: corredor. Descubro uma música e google a letra. Na mesa: o canto, na yoga o lado direito, na cama também. Às vezes me arrumo muito, em outras fico assim como hoje, esmalte saindo, tênis sujo e cabelos precisando de um trato.Mas de rímel, sempre.
terça-feira, 21 de julho de 2009
MINHA ESPERANÇA
"Moça feita, li Drummond a primeira vez em prosa. Muitos anos mais tarde, Guimarães Rosa, Clarice. Esta é a minha turma, pensei. Gostam do que eu gosto. Minha felicidade foi imensa. Continuava a escrever, mas enfadara-me do meu próprio tom, haurido de fontes que não a minha.
Até que um dia (...) começo a escrever torrencialmente e percebo uma fala minha, diversa da dos autores que amava. É isto, é a minha fala."
"Moça feita, li Drummond a primeira vez em prosa. Muitos anos mais tarde, Guimarães Rosa, Clarice. Esta é a minha turma, pensei. Gostam do que eu gosto. Minha felicidade foi imensa. Continuava a escrever, mas enfadara-me do meu próprio tom, haurido de fontes que não a minha.
Até que um dia (...) começo a escrever torrencialmente e percebo uma fala minha, diversa da dos autores que amava. É isto, é a minha fala."

À DERIVA
Gostei muito do filme ontem. Amei hoje.
O dia seguinte é o mais importante prá mim. Não paro de pensar nas areias daquela praia. Felipa e suas dores, a descoberta da sexualidade, amar e repelir, copiar os pais, tentar salvá-los, ter a ilusão de que sabe e controla as coisas, mas as coisas são incontroláveis. Eu sempre tive a água por companhia. Mergulhava, prendia a respiração, amava muito o silêncio que se fazia quando eu estava imersa no mar ou na piscina, nadava, boiava, na água eu me conhecia.
Os pais. O homem leal. A mulher desleal. Ter ou não outro alguém não importa. Importa apenas saber separar sexo de casamento. Ele soube, ela não. Caiu de amor. Ah, as mulheres.
À deriva.
sábado, 18 de julho de 2009
NÓS E NOSSOS DILEMAS
"Eu tenho tempo mas não tenho dinheiro."" Eu tenho dinheiro mas não tenho tempo." Assim dividem-se minhas amigas.
Eu sou do grupo que não tem tempo (não que o dinheiro me sobre). Repito sempre isso, que as horas passam, os minutos, os instantes. E vão-se dias e até anos me deixando a sensação que muitas singelices sucederam sem que eu visse.
Mas nunca soube exatamente o que era aquilo que eu sentia que estava perdendo.
Aí chegou julho e eu vi. Vi que no meio da manhã o aspirador de pó me dá um susto, mas as crianças e o cachorro, tão habituados com aquele barulho, nem param o que estão fazendo para estranhar. Vi que as meninas adivinham o que vão comer pelo cheiro e andam pela casa de meia, e que a meia fica sobrando na frente dos dedos. Vi que pela manhã um metro de sol bom entra no quarto das crianças, e que a calopsita canta alto quando chega nove e meia e que o Bê late muito para ela que fica assustada e derruba a comida. Vi que há uma certa ordem estabelecida sem mim: quem passa o quê, quem lava o quê, quem alimenta quem, quem rega qual. Vi que toca a campainha de manhã e todos sabem que é o moço recolhendo o lixo, mas eu acho que é visita. Vi que a Manu acorda do sono da manhã muito bem humorada, com as bochechas tão rosas que parece que se pintou de canetinha. Vi que as meninas sabem o que é rotina e gostam e olham livros, e sobem na cadeira para pegar água e falam sozinhas e cantarolam musiquinhas. Vi quais são seus livros preferidos e sei agora qual é a parte que elas mais gostam do dvd Toy Story. Ouvi muitas conversas infantis, negociações, brigas boas e um jeito de fazer as pazes bem engraçado. Ouvi juras de amor e amizade eterna, ouvi três, quatro, sete criancas falando a mesmo tempo e me emocionei andando na calçada da Lapa, numa fila indiana com oito crianças e três mães no meio da tarde da última quinta-feira. Estive em casa quando o sol se foi e a noite caiu dando aquela tristezinha na gente. Liguei a tv para ouvir o som da A Cabocla e fiquei sempre com os olhos disponíveis para encontrar o das crianças. Levei e busquei. Dei colo para os meus e todos os agregados. Fiz chá de boneca, segurei pedras que para as crianças eram diamantes, expliquei o que é peruá e contei histórias para dez olhos curiosos cujos donos estavam estáticos, sentados em lótus. Escovei os dentes, limpei atrás das orelhas e assoei o nariz da criançada. Gosto de crianças e sei cuidar delas. Agora volto ao trabalho atrás de dinheiro para um dia ter tempo.
"Eu tenho tempo mas não tenho dinheiro."" Eu tenho dinheiro mas não tenho tempo." Assim dividem-se minhas amigas.
Eu sou do grupo que não tem tempo (não que o dinheiro me sobre). Repito sempre isso, que as horas passam, os minutos, os instantes. E vão-se dias e até anos me deixando a sensação que muitas singelices sucederam sem que eu visse.
Mas nunca soube exatamente o que era aquilo que eu sentia que estava perdendo.
Aí chegou julho e eu vi. Vi que no meio da manhã o aspirador de pó me dá um susto, mas as crianças e o cachorro, tão habituados com aquele barulho, nem param o que estão fazendo para estranhar. Vi que as meninas adivinham o que vão comer pelo cheiro e andam pela casa de meia, e que a meia fica sobrando na frente dos dedos. Vi que pela manhã um metro de sol bom entra no quarto das crianças, e que a calopsita canta alto quando chega nove e meia e que o Bê late muito para ela que fica assustada e derruba a comida. Vi que há uma certa ordem estabelecida sem mim: quem passa o quê, quem lava o quê, quem alimenta quem, quem rega qual. Vi que toca a campainha de manhã e todos sabem que é o moço recolhendo o lixo, mas eu acho que é visita. Vi que a Manu acorda do sono da manhã muito bem humorada, com as bochechas tão rosas que parece que se pintou de canetinha. Vi que as meninas sabem o que é rotina e gostam e olham livros, e sobem na cadeira para pegar água e falam sozinhas e cantarolam musiquinhas. Vi quais são seus livros preferidos e sei agora qual é a parte que elas mais gostam do dvd Toy Story. Ouvi muitas conversas infantis, negociações, brigas boas e um jeito de fazer as pazes bem engraçado. Ouvi juras de amor e amizade eterna, ouvi três, quatro, sete criancas falando a mesmo tempo e me emocionei andando na calçada da Lapa, numa fila indiana com oito crianças e três mães no meio da tarde da última quinta-feira. Estive em casa quando o sol se foi e a noite caiu dando aquela tristezinha na gente. Liguei a tv para ouvir o som da A Cabocla e fiquei sempre com os olhos disponíveis para encontrar o das crianças. Levei e busquei. Dei colo para os meus e todos os agregados. Fiz chá de boneca, segurei pedras que para as crianças eram diamantes, expliquei o que é peruá e contei histórias para dez olhos curiosos cujos donos estavam estáticos, sentados em lótus. Escovei os dentes, limpei atrás das orelhas e assoei o nariz da criançada. Gosto de crianças e sei cuidar delas. Agora volto ao trabalho atrás de dinheiro para um dia ter tempo.
BRUNO MUNARI
Nesses dias de férias não parei um minuto. Levei às crianças ao zoológico, ao teatro Charlie e Lola, ao MAM, ao Museu das Ciências, à casa a avó em Assis, ao cinema, fomos também ao Cobasi ver (e encher o porta-malas) de bichos e plantas e muito mais.
Fica aqui minha dica para os pais:
PROIBIDO NÃO TOCAR - uma exposição linda no SESC Pinheiros inspirada na produção de um designer milanês chamado Bruno Munari. É arte feita especialmente para os pequenos que podem mexer, abrir, entrar, pegar, dobrar, cheirar e experimentar o que quiserem. A patota que estava comigo adorou.
PROIBIDO NÃO TOCAR
SESC PINHEIROS
08/07 a 23/08.
Terça a sexta, das 10h30 às 21h30. Sábados, domingos e feriados, das 10h30 às 18h30.
Outra dica:
Roberto Burle Marx - 100 anos. No MAM
Fiquei impressionada quando vi que além de paisagista e pintor, Burle Marx ainda foi tapeceiro, músico, designer, ceramista e hospitaleiro e dizia que gostava das pessoas e de cuidar das pessoas.
quinta-feira, 16 de julho de 2009
quarta-feira, 15 de julho de 2009
ADÉLIAS PARA ALEGRAR
Depois encontrei meu pai, que me fez festa
e não estava doente e nem tinha morrido, por isso ria,
os lábios de novo e a cara circulados de sangue,
caçava o que fazer pra gastar sua alegria:
Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera
Depois encontrei meu pai, que me fez festa
e não estava doente e nem tinha morrido, por isso ria,
os lábios de novo e a cara circulados de sangue,
caçava o que fazer pra gastar sua alegria:
Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera
segunda-feira, 13 de julho de 2009
PENSANDO NA FRANÇA
Nunca vi uma mulher francesa de tênis.
Ninguém amarra um cachecol como as parisienses.
Sim, elas são magras e comem queijos e bebem vinhos. Pesam, em média, 57 quilos.
Na Lafayette há uma área de 3 mil metros quadrados dedicados à lingeries. Acho que as mulheres francesas nunca dormiram na vida com uma camiseta do bradesco.
Não existe a menor chance de uma Gloria Kalil ir falar para as francesas como se vestir ou se comportar. Elas aprenderam com suas avós.
Nunca vi uma mulher francesa de tênis.
Ninguém amarra um cachecol como as parisienses.
Sim, elas são magras e comem queijos e bebem vinhos. Pesam, em média, 57 quilos.
Na Lafayette há uma área de 3 mil metros quadrados dedicados à lingeries. Acho que as mulheres francesas nunca dormiram na vida com uma camiseta do bradesco.
Não existe a menor chance de uma Gloria Kalil ir falar para as francesas como se vestir ou se comportar. Elas aprenderam com suas avós.
domingo, 12 de julho de 2009
AGE
A disposição diminuiu. Um pileque de nada dá ressaca. As articulações doem, que dor besta. Estou aderindo a chás, aumentei o poder do creme, sucumbi ao dermatologista e não esqueço dos milagres que ele se diz capaz. Simone de Beauvoir aos trinta e cinco se achava velha.O dermatologista me propôs botox. Li assim: ridículo como uma mulher de trinta e cinco usar minisaia. Minha filha já tem medo de eu morrer. Peraí, peraí, calma tempo. Olha aqui, eu ainda me imagino menina e essa falta de coerência tá ficando esquisita. A maturidade tem duas vertentes prá mim: uma trato com retinol da Roc. A outra encaro jurando ao tempo que reconheço sua preciosidade e vou tentando me conhecer para então saber usá-lo com delicadeza. Confesso que quando comecei a me investigar não sabia o que era marca de expressão, mas sigo confiante que estou perto das grandes revelações. Om.
A disposição diminuiu. Um pileque de nada dá ressaca. As articulações doem, que dor besta. Estou aderindo a chás, aumentei o poder do creme, sucumbi ao dermatologista e não esqueço dos milagres que ele se diz capaz. Simone de Beauvoir aos trinta e cinco se achava velha.O dermatologista me propôs botox. Li assim: ridículo como uma mulher de trinta e cinco usar minisaia. Minha filha já tem medo de eu morrer. Peraí, peraí, calma tempo. Olha aqui, eu ainda me imagino menina e essa falta de coerência tá ficando esquisita. A maturidade tem duas vertentes prá mim: uma trato com retinol da Roc. A outra encaro jurando ao tempo que reconheço sua preciosidade e vou tentando me conhecer para então saber usá-lo com delicadeza. Confesso que quando comecei a me investigar não sabia o que era marca de expressão, mas sigo confiante que estou perto das grandes revelações. Om.
SOBRE ADMIRAÇÃO
Não sei se amo porque é Shakespeare, ou porque é o Fernando Meirelles ou porque é o Tin e sua luz trágica, delicada, elegante, íntima, única.
Disse o Fernando: "Valeu Tintim. Acho que fizemos mesmo um bonito trabalho. Nêgo vem me dizer que parece cinema e isso tem toda relação com o seu trabalho. Aquela sequência do Hamlet que fizemos juntos está sensacional. Não perca."
Não sei se amo porque é Shakespeare, ou porque é o Fernando Meirelles ou porque é o Tin e sua luz trágica, delicada, elegante, íntima, única.
Disse o Fernando: "Valeu Tintim. Acho que fizemos mesmo um bonito trabalho. Nêgo vem me dizer que parece cinema e isso tem toda relação com o seu trabalho. Aquela sequência do Hamlet que fizemos juntos está sensacional. Não perca."
quinta-feira, 9 de julho de 2009
EM ASSIS 2
Melhor que ver o jogo do Corinthians é ver o jogo do Ronaldo visto pelos olhos da minha mãe. "Vai Lindo, que eu adoro ocê. Faz gol, gordo, faz, hoje você tem que brilhar senão nem sei. Alá. Alá. Não falei que ele ia fazer gol. Lindô! Adoro de paixão ele e o Silvio Santos. Ai, morro de medo dele se machucar. Levanta. Alá, gol. Qual é o outro time? Fluminense. Ah, o Flamengo é bem melhor. Esse aí é o Dentinho. Vou pegar uma canjica, quer? Ah, ele fez gol? Não diga! Que belezinha." Enquanto isso, meu pai, que é corinthiano, mudo.
Melhor que ver o jogo do Corinthians é ver o jogo do Ronaldo visto pelos olhos da minha mãe. "Vai Lindo, que eu adoro ocê. Faz gol, gordo, faz, hoje você tem que brilhar senão nem sei. Alá. Alá. Não falei que ele ia fazer gol. Lindô! Adoro de paixão ele e o Silvio Santos. Ai, morro de medo dele se machucar. Levanta. Alá, gol. Qual é o outro time? Fluminense. Ah, o Flamengo é bem melhor. Esse aí é o Dentinho. Vou pegar uma canjica, quer? Ah, ele fez gol? Não diga! Que belezinha." Enquanto isso, meu pai, que é corinthiano, mudo.
EM ASSIS
Deitamos para ver a novela: eu, mamãe e Lolô. A pequena logo dormiu com a cabeça no meu colo e o pé em cima da avó. Tava escurinho e eu fiquei olhando a mão da minha mãe fazendo carinho no pé da Lolô. Olhando, olhando. E a mão mexia, fazia carinho, pegava os dedinhos. E o pé dela tão relaxado, à vontade, em casa na mão da avó.
Deitamos para ver a novela: eu, mamãe e Lolô. A pequena logo dormiu com a cabeça no meu colo e o pé em cima da avó. Tava escurinho e eu fiquei olhando a mão da minha mãe fazendo carinho no pé da Lolô. Olhando, olhando. E a mão mexia, fazia carinho, pegava os dedinhos. E o pé dela tão relaxado, à vontade, em casa na mão da avó.
segunda-feira, 6 de julho de 2009
ELIAS
Fala mansa, jeito mineiro, sorriso dócil, barriga grande, voz grave e mãos pequenas e trêmulas. Elias. Veio trabalhar comigo há uns oito anos. Não queria salário, queria uma cadeira, uma mesa, sossego e uns clientes que imprimessem algumas coisas e portanto que fizessem as gráficas arcarem com seu salário. Deu certo. Ele era um papa da produção gráfica, um mestre que já havia transcendido a profissão e fazia tudo sem esforço algum. Por anos e anos ele estava lá e porque ele estava alguma coisa parecia certa, em ordem, completa. Ter o Elias na nossa vida era como assistir ao Rei Leão dez vezes. Digo, as crianças assistem tanto porque prevêem o que vai acontecer na próxima cena, isso dá um conforto e uma sensação de bem-estar. O Elias era assim, um homem com grande aptidão para a rotina. Chegava ao trabalho todos os dias na mesma hora, ia embora todos os dias na mesma hora, convidava o Zebra para um café, dizendo que era por conta dele, sendo que o café estava ali na cozinha da agência, de graça. Não precisava de computador, então enquanto todos agitavam seus olhares na frente da tela, Elias olhava para a frente, para um biombo que não tinha nada, nenhuma foto sequer. Ficava ali, quieto, sem se preocupar em ocupar o tempo fazendo coisas desnecessárias. Acho que pensava em Caxambu onde viveria depois de aposentado.
Elias teve assistentes leais: a Fabricia, a Tati e a Ju. Presentou todas com um vidro de perfume francês. Me deu de presente uma linda foto da Lorena, muito grande, dentro de um porta-retrato que comprou, eu sei, com grande carinho.
Elias não era ingênuo. Sabia fazer brincadeiras de homem e falar bobagens no meio da meninada. Fazia piadas espirituosas, trazia doce de leite de Minas, nunca esquecia dos detalhes, das gentilezas. Quer ganhar mais? Um dia o Marcelo perguntou a ele. Não, ele respondeu. Sem ao menos ter interesse em saber quanto nem como, mas já prevendo que seria de algum jeito que lhe roubaria a paz de espírito. Quando minha barriga de grávida crescia ele dizia que eu ia alcancá-lo. Quando minha filha nasceu ele apareceu para uma visita. Quando era Natal ele me ligava no celular, lá de Caxambu para desejar alegria e saúde para os meus. O ano começava e ele me dava uma agenda, logo mais vinha com um caderno com meu nome impresso. Sorria sempre que me via e eu retribua. Que bom saber disso.
Elias, descanse em paz.
domingo, 5 de julho de 2009
REFLEXÃO
De longe sei o que não gosto em você. Sua luz é artificial e os assuntos que você trata são adiáveis, embora você ache todos urgentes. Você me prende, me quer o dia todo, não me solta um pouco pela tarde afora para eu aí sim, encontrar a luz do sol. Você me dá um sobrenome e nós nem somos casados, você quer saber onde eu estou, você parece um filho, mas eu não te amo como filho. Te respeito e me dou muito bem contigo, mas você, trabalho, é só um ofício.
De longe sei o que não gosto em você. Sua luz é artificial e os assuntos que você trata são adiáveis, embora você ache todos urgentes. Você me prende, me quer o dia todo, não me solta um pouco pela tarde afora para eu aí sim, encontrar a luz do sol. Você me dá um sobrenome e nós nem somos casados, você quer saber onde eu estou, você parece um filho, mas eu não te amo como filho. Te respeito e me dou muito bem contigo, mas você, trabalho, é só um ofício.
sábado, 4 de julho de 2009
AZEITE, AÇÚCAR E SILÊNCIO
Não fosse pela Lolô que cantarolava baixinho enquanto desenhava, a casa estaria em silêncio. Assim passaram-se uns sete minutos.
Nesses sete minutos Manu pegou uma cadeira, subiu na mesa, pegou o azeite (inenarrável) que comprei em St Paul de Vence, tirou a tampa, pegou o açucareiro e foi devagarinho, colher por colher, enchendo o azeite de acúcar. Depois virou tudo em cima da mesa, sobre a mistura de azeite com acúcar colou um papel sulfite e ainda por cima pegou uma canetinha e pôs-se a desenhar coisinhas de nenê. Tudo isso sem fazer um barulhinho sequer.
Eu também não fiz barulho. Tirei a pequena de cima da mesa depois de ter dado um soluço de espanto. Em silêncio me pus a limpar tudo. Ela me ajudou com um guardanapinho amassado.
JARDIM
Na terça chegou a Dani e com ela todo o verde da minha vida. Regue assim, faça assado e nunca esqueça de dizer a elas que são bem-vindas na sua casa nova, que serão cuidadas e amadas, nunca se esqueça do afeto com as plantinhas.
Nunca cuidei de plantas e senti um gelo quando ouvi isso. As plantas também precisam de mim, além das crianças, o marido e o cachorro. As plantas morrem sem a água e murcham sem o carinho. Alegria e medo. Mas a Lolô pegou logo um regador e lá foi dar as boas vindas para toda aquela folhagem. E a lavanda perfumou tudo desde então.
MULHERZINHA! MULHERZINHA!
Como estou feliz de férias com as crianças. Tem bolo toda tarde, tem amigos, muitos, todos os dias. Feira, mercado, leva e busca e dá banho e faz penteados no cabelo da Lolô. E troca a Manu, conta histórias e vê a pequenininha querendo falar tudo: mamãe, zuda, não conxegue, mas cococa. E eu querendo segurar a folhinha para os vinte dias não acabarem nunca.
Como estou feliz de férias com as crianças. Tem bolo toda tarde, tem amigos, muitos, todos os dias. Feira, mercado, leva e busca e dá banho e faz penteados no cabelo da Lolô. E troca a Manu, conta histórias e vê a pequenininha querendo falar tudo: mamãe, zuda, não conxegue, mas cococa. E eu querendo segurar a folhinha para os vinte dias não acabarem nunca.
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