ELIAS
Fala mansa, jeito mineiro, sorriso dócil, barriga grande, voz grave e mãos pequenas e trêmulas. Elias. Veio trabalhar comigo há uns oito anos. Não queria salário, queria uma cadeira, uma mesa, sossego e uns clientes que imprimessem algumas coisas e portanto que fizessem as gráficas arcarem com seu salário. Deu certo. Ele era um papa da produção gráfica, um mestre que já havia transcendido a profissão e fazia tudo sem esforço algum. Por anos e anos ele estava lá e porque ele estava alguma coisa parecia certa, em ordem, completa. Ter o Elias na nossa vida era como assistir ao Rei Leão dez vezes. Digo, as crianças assistem tanto porque prevêem o que vai acontecer na próxima cena, isso dá um conforto e uma sensação de bem-estar. O Elias era assim, um homem com grande aptidão para a rotina. Chegava ao trabalho todos os dias na mesma hora, ia embora todos os dias na mesma hora, convidava o Zebra para um café, dizendo que era por conta dele, sendo que o café estava ali na cozinha da agência, de graça. Não precisava de computador, então enquanto todos agitavam seus olhares na frente da tela, Elias olhava para a frente, para um biombo que não tinha nada, nenhuma foto sequer. Ficava ali, quieto, sem se preocupar em ocupar o tempo fazendo coisas desnecessárias. Acho que pensava em Caxambu onde viveria depois de aposentado.
Elias teve assistentes leais: a Fabricia, a Tati e a Ju. Presentou todas com um vidro de perfume francês. Me deu de presente uma linda foto da Lorena, muito grande, dentro de um porta-retrato que comprou, eu sei, com grande carinho.
Elias não era ingênuo. Sabia fazer brincadeiras de homem e falar bobagens no meio da meninada. Fazia piadas espirituosas, trazia doce de leite de Minas, nunca esquecia dos detalhes, das gentilezas. Quer ganhar mais? Um dia o Marcelo perguntou a ele. Não, ele respondeu. Sem ao menos ter interesse em saber quanto nem como, mas já prevendo que seria de algum jeito que lhe roubaria a paz de espírito. Quando minha barriga de grávida crescia ele dizia que eu ia alcancá-lo. Quando minha filha nasceu ele apareceu para uma visita. Quando era Natal ele me ligava no celular, lá de Caxambu para desejar alegria e saúde para os meus. O ano começava e ele me dava uma agenda, logo mais vinha com um caderno com meu nome impresso. Sorria sempre que me via e eu retribua. Que bom saber disso.
Elias, descanse em paz.
Ah Ana! Quantas saudades do Mestre! Li seu texto e me lembrei exatamente das coisas que ele me dizia: "Essa história de virar a noite é bobagem. Bom profissional vai embora as 18h".
ResponderExcluirBeijos pra vc... Fá
Duds, ja tenho saudade do Elias sem mesmo ter conhecido. Linda homenagem.
ResponderExcluirAna,
ResponderExcluirPeguei essa foto pra mim. Me lembro desse dia. Na véspera, o Elias entrou na criação e me disse, "Raul, vamos ver a menina antes que ela entre correndo por aquela porta". Eu disse, "Ok, vamos amanhã". Passamos na floricultura, pegamos um vasinho bonito de flores e fomos. Eu, os dois moleques e ele. Que pena que ele foi tão cedo. Mas era bem dele isso mesmo, sempre ia embora cedo. Vai fazer uma falta enorme.
Um beijo,
R
Nosso "eláias".
ResponderExcluirNo inglês, para fazer ele rir.
No hebraico, "Meu Deus é Jeová".
No meu coração: meu Deus, que saudade.
Suas palavras são lindas, esta imagem é única.
Felizes somos nós que tivemos a honra de conhecê-lo.
mais uma prova de que tudo que é bom, acaba antes que a gente possa pensar em segurar para sempre...
ResponderExcluirlindo texto aninha