sábado, 18 de julho de 2009

NÓS E NOSSOS DILEMAS

"Eu tenho tempo mas não tenho dinheiro."" Eu tenho dinheiro mas não tenho tempo." Assim dividem-se minhas amigas.
Eu sou do grupo que não tem tempo (não que o dinheiro me sobre). Repito sempre isso, que as horas passam, os minutos, os instantes. E vão-se dias e até anos me deixando a sensação que muitas singelices sucederam sem que eu visse.
Mas nunca soube exatamente o que era aquilo que eu sentia que estava perdendo.
Aí chegou julho e eu vi. Vi que no meio da manhã o aspirador de pó me dá um susto, mas as crianças e o cachorro, tão habituados com aquele barulho, nem param o que estão fazendo para estranhar. Vi que as meninas adivinham o que vão comer pelo cheiro e andam pela casa de meia, e que a meia fica sobrando na frente dos dedos. Vi que pela manhã um metro de sol bom entra no quarto das crianças, e que a calopsita canta alto quando chega nove e meia e que o Bê late muito para ela que fica assustada e derruba a comida. Vi que há uma certa ordem estabelecida sem mim: quem passa o quê, quem lava o quê, quem alimenta quem, quem rega qual. Vi que toca a campainha de manhã e todos sabem que é o moço recolhendo o lixo, mas eu acho que é visita. Vi que a Manu acorda do sono da manhã muito bem humorada, com as bochechas tão rosas que parece que se pintou de canetinha. Vi que as meninas sabem o que é rotina e gostam e olham livros, e sobem na cadeira para pegar água e falam sozinhas e cantarolam musiquinhas. Vi quais são seus livros preferidos e sei agora qual é a parte que elas mais gostam do dvd Toy Story. Ouvi muitas conversas infantis, negociações, brigas boas e um jeito de fazer as pazes bem engraçado. Ouvi juras de amor e amizade eterna, ouvi três, quatro, sete criancas falando a mesmo tempo e me emocionei andando na calçada da Lapa, numa fila indiana com oito crianças e três mães no meio da tarde da última quinta-feira. Estive em casa quando o sol se foi e a noite caiu dando aquela tristezinha na gente. Liguei a tv para ouvir o som da A Cabocla e fiquei sempre com os olhos disponíveis para encontrar o das crianças. Levei e busquei. Dei colo para os meus e todos os agregados. Fiz chá de boneca, segurei pedras que para as crianças eram diamantes, expliquei o que é peruá e contei histórias para dez olhos curiosos cujos donos estavam estáticos, sentados em lótus. Escovei os dentes, limpei atrás das orelhas e assoei o nariz da criançada. Gosto de crianças e sei cuidar delas. Agora volto ao trabalho atrás de dinheiro para um dia ter tempo.

3 comentários:

  1. Oi, Ana!
    Amanhã vc não vai mais me ver na agência, pq escolhi ter mais tempo (e menos dinheiro, fazer o que? rs)
    Bjs
    Rúbia

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  2. Nica é verdade, tempo e dinheiro não gostam de andar juntos não. Vejo muitos que já tem dinheiro para terem mais tempo, mas nem assim conseguem. Tenho pra mim que essa é uma escolha injusta, a danada! Me apego por enquanto a verdade dos mais sábios: se você não faz, ouve ou vê algo que gostaria, é porque está fazendo, vendo ou ouvindo algo melhor. Se não for por essa razão, não deve ser por mais nenhuma outra.
    Vamos almoçar pela Berrine essa semana? saudade.

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  3. Ana
    Vivo com pouco tempo, dinheiro quase suficiente e com as crianças perto, bem perto ... a propósito, a novela rural das 18h é PARAISO (kkk).
    Sorte, tempo e amor pra vcs !
    Re

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