CERTEZA
Duas filhas dormindo no banco de trás.
Eu pergunto:
- Quer ouvir poesia?
- Humhum
De mãos dadas
(Carlos Drummond de Andrade)
"Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente."
Ele sorria ouvindo os versos. Muitos. 34 poemas. A estrada looonga a nossa fente. Minha cidade ficando para trás.
Tive tanta certeza.
"Mãos Dadas", por Carlos Drummond de Andrade
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