terça-feira, 16 de junho de 2009

NO INVERNO

Meu pai dizia: deu na televisão que hoje vai fazer muito frio. De noite me cobria, prendendo os cobertores em baixo do colchão. No frio meu pai se deitava um pouco na minha cama para ela dar uma esquentadinha, só depois eu ia. No frio a gente se deitava na grama da escola e deixava o sol esquentar nossas histórias. No frio de oitenta e pouco, nessa grama aí, eu nunca imaginei que um dia seria difícil arranjar uma grama para deitar e seria difícil arrumar um solzinho para esquentar. No frio sopa de feijão. No frio pé gelado. No frio minha mãe pedia para cozinhar lata de leite moça na panela de pressão. No frio eu espirrava. No frio alguém vinha a noite ver se eu estava coberta. No frio nasceu a Lolô. No frio minhas filhas dormem e não se cobrem. No frio eu durmo pensando nelas. Estão cobertas? E levanto. Será que a Manu não vai sufocar com o cobertor? E levanto para tirar as cobertas e pôr aquecedor. Será que o aquecedor não explode? hein, baby? Não? E levanto para desligar o aquecedor. No frio minha avó fazia ovo quente. No frio chocolate quente e banho bem quente. No frio falar ai que friiiiiiiiio toda hora e esfregar uma mão na outra. Num frio que ainda virá, as meninas vão dizer: quando eu era pequena e fazia frio meu pai dizia: essa noite vai fazer 11 graus, e minha mãe me enchia de blusas, cobertas e outras quenturices.

Um comentário:

  1. Ana Paula Marques. Redatora do meu coração. Dito com todo respeito e distância pra evitar que o Marceleza me assassine.

    ResponderExcluir