SOBRE EDUCAR
Mamãe, você está feliz que a Dilma ganhou? Ela é amiga do Lula? A vovó Laila gosta da Dilma? A tia Cice gosta da Dilma? Por que elas não gostam da Dilma? Por que elas gostam do Serra? A Dilma manda na Disney?
Assim começou o questionário da Lolô quando viu a capa do jornal que levava a foto da nossa presidenta.
Tentei explicar o porque a vovó Laila não gosta do Lula nem da Dilma. Mas é verdade que o Lula viu alguém roubar e mentir e não falou nada, mamãe? Como o ladrão roubou o dinheiro? Que dinheiro, mamãe?
Comecei a achar difícil explicar tudo pra ela. Todos nós damos um pouco de dinheiro para ajudar o presidente a cuidar do país. Para fazer escolas e hospitais. Muitas e muitas pessoas trabalham pegando o dinheiro que juntamos e fazendo essas escolas, hospitais, estradas. Mas aí, uma pessoa que não tem educação pega um pouco do dinheiro para si e compra carro e até fazenda. E as escolas ficam sem livros e os hospitais sem médicos. Mas o Lula deixa um homem sem educação roubar a escola, mamãe? Ele disse que não sabia.
E a vovó Otilia, porque gosta da Dilma?
Você sabia que em 40 anos é a primeira vez que uma mulher será presidente do Brasil? Que antigamente as mulheres nem votavam. Nem trabalhavam. E elas faziam o que, mamãe? Ficavam em casa, cuidando do marido e dos filhos. Mas isso é legal, mamãe. Não filha, mais legal que isso é poder escolher se quer ficar em casa ou trabalhar. Escolher o nosso presidente. Escolher a vida que queremos ter. A vovó Otilia acha que você pode até ser presidente se quiser. Mas eu não quero, mamãe.
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Então coloquei a pequena no colo, entrei no youtube e decidi apresentar a ela o que é a democracia. Mostrei o comício das Diretas. Mostrei a multidão de pessoas que queriam votar. Mostrei Tancredo Neves, Lula, Fernando Henrique, Serra.
Me mostra agora a onde a Dilma vai morar? É num castelo?
E mostrei o Palácio da Alvorada.
Fiz tudo isso imparcialmente, como o William Bonner quando anunciou a vitória de Dilma.
Educar é uma arte. É preciso apresentar o cenário e não fechar as conclusões. É preciso dar corda ao interesse da criança e ter paciência quando a vontade de saber sobre algum assunto ainda não se manifestou.
E dar exemplos, muitos e sempre.
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Hoje li a Cice:
"Eu não quero retroceder, isso não, mas quero manter a educação solidária em casa, aquela que não é assistencialismo barato, que a gente faz porque quer e tem tempo, porque respeita as diferenças, porque é gentil. Porque se dirige a alguém mais velho como senhor, que espera a vez, que não fura a fila, que empresta o livro acreditando que o terá de volta. Quero ensinar que não se põe palavras na boca de ninguém, não se mente, não se vira às costas pra quem precisa, não se maltrata a natureza, não se aproveita de situações. Que o oportunismo é feio, mas a espera é virtuosa e que há recompensa pra quem prioriza o próximo, e o ajuda. Quero educar preservando o jeito, a personalidade, as críticas, questionamentos, curiosidades."
Oxalá. Assim seja.
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