terça-feira, 12 de setembro de 2006

DESAPEGO

Acho que estou me transformando. Notei isso quando decidi jogar e-mails fora. Não só porque andam ocupando espaco, mas porque me ocorreu que aqueles instantes passaram. Sabia que se joga coisas fora porque me disseram ,mas nunca senti vontade de me desfazer de nada. Pois dessa vez, distraída de mim, me vi enchendo meu lixo de palavras e passagens e histórias. Os subjects: Sonhos, Olha isso, Da vida, Presença na ausência, Cara estranho, Dói e muitas centenas de outros e-mails que troquei com grandes amigos. Um monte de gavetinhas contendo questões de ordem existenciais.
É da minha natureza também não gostar de separações, de trem partindo, de pessoas andando e eu achando que elas não voltam mais, de vizinhos mudando para outra cidade. Não gosto que morram. O Dr Sang, o pai de uma amiga, um cachorro na marginal, a esposa de um grande amigo, o Raul Cortez. Quando pequena caí de cama certa vez que aconteceu o seguinte: eu tinha uma cachorra vira-lata chamada Suzi. Um dia cheguei da escola e fui até a janela do quarto chamá-la. Chamei, chamei, chamei. Mas só a coleira dela estava lá, porque a Suzi havia sido atropelada por um carro na rua. Ver a coleira sem ela, seus brinquedos e seu espaço parados na tarde foram um espanto pra mim. E a vida nem parou um pouco para me fazer entender aquilo. O telefone continuava tocando, os carros passavam na rua fazendo barulho, no dia seguinte tinha escola e tudo. Eu fiquei num luto secreto, escrevi o nome dela na palma da minha mão, tive febre, chorei baixinho no banho e concluí que só o tempo poderia me ajudar.
Essas memórias a gente não joga fora, né?
Vida, vidinha, com os e-mails, foi para o lixo um pouco do meu apego.

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