
MEMÓRIAS
Ter um filho faz a gente viver nossa infância de novo. O adormecer no carrinho, suar na nuca, uma brisa que vem de tardezinha e bate no rosto, aquele banho morno, que terminava no colo de alguém.
Nos últimos dias minha memória anda muito viva. Me lembro do portãozinho cinza da casa da vovó Martha se abrindo e ela batendo palmas e dizendo em árabe : Arrlasarra! Arrlasarra! (que quer dizer: bem-vinda, bem-vinda). Lembro da roseira que ficava num canteiro. Eu brincando na terra, apanhando limão-rosa para o almoço, subindo no botijão de gás para espiar minha vó cozinhando. E ela molhava um pedaço de pão no molho da carne de panela e me dava.
Meus primos e eu costumávamos subir no encosto do sofá para pular no colo do tio Nis que nos pegava no ar, dando sempre uma boa gargalhada cada vez que alguém saltava.
Minha avó tinha muitos gatos no quintal. Uns nove. Todos genéricos, sem nome, tratados como “os gatos”. Só um branco de pêlos longos que tinha suas regalias, incluindo um nome: Chico. Pois uma vez ele sumiu, acho que morreu e veio outro, branco também, de pêlos longos, também, Chico também. Quando os gatos se multiplicavam muito a Titá colocava as ninhadas dentro de uma sacola, entrava no seu fusca e deixava a sacola no mato. E eu criança ia junto, aflita, ouvindo os gatinhos miando sem poder fazer nada. Acho que aí comecei a entender que nem tudo é como a gente quer.
Agora por exemplo, eu gostaria de estar debaixo da mangueira da casa da vovó, na rua Ângelo Bertoncini, sentada na terra, sabendo que toda a minha família estaria dentro de casa, incluindo minha avó.
Mas nem a casa nem minha avó existem mais. E eu estou aqui, trabalhando. Mas com a memória muito viva.
Lindo...
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