quinta-feira, 30 de novembro de 2006

PROUST

“Cada qual considera claras as idéias que estão
no mesmo grau de confusão que as suas” - Proust

segunda-feira, 27 de novembro de 2006


PAVÃO

Eu apresento o mundo para a Lola todos os dias. O que tenho que confessar é que eu mesma estou conhecendo o mundo agora. Parece que nunca havia reparado muito bem em nada. Falo da natureza. Fui primeiro apresentada às formas estilizadas e agora me espanto quando vejo que elas são cópias da realidade.
No sábado vi um pavão e fiquei vidrada nele. Com a cabeça de um azul que não se reproduz. Uma cauda imensa, assustadora, com desenhos geométricos perfeitos, um pavão existindo, sendo, lindo de morrer. Andava no chão ao meu lado. De repente vôou para cima do muro e eu fiquei aflita, doida para correr, abraçar alguém para me proteger do meu próprio espanto, perguntar afobada: - Onde ele vai? Como ele voa se é tão pesado? Quantos anos ele tem? Ele é homem ou mulher? Ele é de verdade mesmo?
Acontece que agora eu estou aqui para responder. E o pavão é só o começo.
E-MAIL INESPERADO

Eu sempre choro quando leio as singelices.
De alegria. De ternura. Da dor compartilhada de existir com seu caudal de limites e impedimentos.

Maria Otília

Maria Otília é minha sogra. Toda vez que ela escreve algumas linhas eu leio, releio e não canso de encontrar significados para as palavras dela e para mim mesma.
Caudal.
Dor compartilhada.
Limites.
Alegria.
Ternura.

Escrever no blog faz a gente demitir a terapeuta.

quarta-feira, 22 de novembro de 2006


ÀS VEZES...

Eu me sinto uma menina tímida tendo que parecer uma mulher resolvida.

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

FELICIDADE

É chegar em casa e ter uma nenê linda e um cachorrinho te esperando na porta, eufóricos com a sua presenca.

SE E QUASE

São duas palavras inúteis. Não queria usá-las hoje.
AMIGA DE INFÂNCIA

Sábado passado a Fernanda Jerônimo minha amiga de infância se casou eu eu não fui. Não fui porque a Adri pediu folga e a Lolô estava em franco mau-humor com os dentes nascendo.
Pois é, mas eu tinha que estar lá. A Fefê era muito minha amiga. Morava perto de casa, fazíamos natação juntas, catecismo, perseverança, jazz, basquete. Íamos juntas à missa da criança. Levávamos juntas a oferenda para o Mosenhor Floriano, que chegou a parar uma missa dizendo que algumas crianças estavam rindo muito e atrapalhando o sermão. A criança era eu que fazia a Fefê suar frio. Fefê era a mais magra da classe, de coluna mais ereta, mais estudiosa, mais responsável e a mais contida. Ganhava medalhas de honra ao mérito, levava lanche balanceado que sempre contava com um pão-de-leite com requeijão, cuja dentada era disputada a tapa por nós. Eu, mais baixa que ela, menos correta, menos magra, com notas menores (mas ainda boas, já que ela me passava cola) formava com ela uma dupla improvável, mas muito unida. A gente fazia coreografias de jazz do disco da Rita Lee para apresentar para a mãe dela no fim do dia. E depois íamos de bicicleta até o colégio Carlos Alberto. Lá, eu gostava de carregar minha berlineta escadaria acima e depois descer montada na bicicleta, os parafusos caindo pelo chão e a gargalhada solta porque o tranco era grande e a gente ficava muito engraçada naquela situação. Depois me lembro de nós duas com martelo tentando desamassar a Ceci da Fefê.
Teve também um dia que meu pai arrancou os bancos do Opala para mandar arrumar. Ficou só o dele. Para eu sentar pôs o banquinho da cozinha ao lado do câmbio, mas na primeira curva o banquinho virou e eu decidi ficar sentada no chão do carro mesmo. Estávamos indo buscar a Fefê. Papai buzinou em frente a casa dela e ela apareceu na porta. Viu só ele no carro e estranhou. Até que eu me levantei do chão e ela entendeu tudo. Entrou no carro, sentou ao meu lado e, desesperada, tentava de todo jeito conter a gargalhada. Eu não contive, fui me contorcendo de rir da situação.
Fefê virou uma engenheira, formada pela Unicamp. Trabalhadora, séria, correta.
Sábado ela se casou e eu não fui. Mas o que sinto mesmo é não ter podido embrulhar para presente essas lembranças. Para ela poder sempre espiar a nossa infância e rir sem se segurar.

terça-feira, 14 de novembro de 2006


ONTEM MESMO ELA ESTAVA AQUI.

Acordei com a sensação de que alguma coisa estava me faltando.
Era aquela euforia.

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

PARA COMEÇAR

"Tudo o que tens a fazer é escrever uma frase verdadeira. Escreve a frase mais verdadeira que souberes."
COISAS DA VIDA...

Preciso de yoga. Sou uma devota.
Pratico religiosamente às segundas, quartas e sextas e às vezes aos sábados também. Isso já tem anos. Uns cinco.
Respiro melhor graças a yoga. Sou mais flexível com as coisas da vida e ouso mais também graças a yoga. Aprendi que existem outros pontos de vista desde que iniciei a postura sirshasana. Gosto dos mantras, do sânscrito, da India. Pratiquei yoga grávida, até o fim do nono mês. Fiz a respiracão Ujjayi quando entrei em trabalho de parto.Depois da quarentena estava de volta às aulas. Faça chuva ou sol, faça choro de Lola a noite toda, ou trabalho até tarde na véspera, nada me tira o ânimo de vestir minha calca larga, camiseta regata, chinelos havaianas e seguir para a Oscar Freire.
Mas hoje bem na hora da minha aula estava chegando ao centro empresarial para fazer uma reunião com a Procter que ao pisar lá soube que foi cancelada.
Eu estou puta e quem achar que não tenho motivos é favor não falar mais comigo.

quinta-feira, 9 de novembro de 2006




BUENOS AIRES

Buenos Aires é uma linda mulher tristonha. Mesmo com seu céu azul de primavera, suas árvores floridas e sua elegância às vezes ela fica com vontade de chorar.
Eu também.
Nessa segunda-feira estive muito apaixonada por aquele entardecer portenho. Queria mergulhar na cidade. É que dei de querer o mundo todo pra mim. Estou sensorial, entregue aos instantes e com desejos urgentíssimos de vida.

SAUDADE

Quando ouvi meu pai cantar para a Lolô que o gatinho quando dorme faz rom, rom, quis deitar no colo dele e ser criança de novo.

quarta-feira, 8 de novembro de 2006


A VERDE E ROSA

Ando com vontade de dar uma mordida na vida, pegar o mundo no colo, dar amor, rir, chorar. O Rio de Janeiro me ajuda a sentir essa alegria de viver.
No sábado passado estivemos na quadra da Mangueira. Coração batendo junto com a bateria. A assistente do almoxarifado de um escritório brilhava como passista. As velhinhas gordas e mulatas eram cortejadas por ocupar o nobre posto de baianas. Os senhores já idosos se alinhavam em ternos verde-e-rosa e observavam os endinheirados da zona sul admirando-os. Vi ali o Brasil dos meus sonhos. Livre, fraterno, onde todo mundo é igual e alegre. Onde todos têm o mesmo sonho: fazer a escola brilhar.
Acho que o sentimento de fazer parte, incluir-se e servir a algo maior é o que move a humanidade.
A Mangueira me levou e eu fui.
MEU ANIVERSÁRIO

Tenho na memória muitos aniversários que fiz. Lembro pelo vestido que usei: com um de crochê azul feito pela vovó Martha comemorei meus cinco anos, com um outro de crochê rosa assoprei seis velinhas. Teve um longo até o pé, cheio de passamaria que usei aos quatro anos. Me lembro até do meu terceiro F-E-L-I-Z A-N-I-V-E-R-S-Á-R-I-O com o Pluto e o Pateta interagindo com as letras que penduradas lado-a-lado enfeitavam a sala. As sodinhas sobre a mesa encaixadas numa luva do Zé Carioca. Um bolo branco e alguns presentes como um telefone de plástico, uns blocos de igrejinhas de madeira e um relógio.
Daí pra frente minha mãe iniciou a tradição de contratar um carrinho de sorvete e outro de algodão doce todo santo aniversário. Era aquela criançada se lambuzando com sorvete de brasinha e sagu. Fazia calor e a gente podia tomar quantos quisesse. Desde aquela época vivia uma certa melancolia toda vez que me sentia na obrigação de ser feliz e comemorar e dançar, mas desde esta época também gostava de ver meus amigos contentes na minha casa. Gostava de receber e acolher e fazer todo mundo se sentir bem à vontade.
Não mudei nada. Aos trinta e três anos recebi meus pais queridos na véspera do meu aniversário. Jantamos juntos, tomamos um vinho e depois da meia-noite fiquei sentada à mesa com meu pai, ouvindo-o contar um pouco sobre sua juventude. Que sensação maravilhosa. A Lolô dormindo como um anjinho, meus pais cheios de saúde, o Tin tão meu marido. Meus tios ao telefone.
Para completar vieram os amigos festejar comigo e me deram de presente a alegria de sentir prazer ao celebrar a amizade. Sentados pelos sofás contavam histórias, em pé na cozinha falavam alto, as bochechas meio rosa do vinho e o riso muito fácil. Fui muito feliz nesse dia primeiro de novembro.