

VOYERISMO LITERÁRIO - ando lendo cartas e mais cartas. Queria as amizades assim: amorosas, profundas, inquietas e comprometidas com a evolução
De Drummond para Clarice:
De Clarice guardamos gestos. Gestos,
tentativas de Clarice sair de Clarice
para ser igual a nós todos
em cortesia, cuidados materiais.
Clarice não saiu, mesmo sorrindo.
Dentro dela
o que havia de salões, de escadarias,
de tetos fosforescentes e longas estepes
e zimbórios e pontes do Recife em bruma envoltas
formava um país, o país onde Clarice
vivia, só e ardente, construindo fábulas.
De Drummond para Mario de Andrade:
"E em mim há uma grande secura interior, que às vezes faz com que me censure a mim mesmo por não sofrer bastante essa perda. Pensei que ela me tornaria melhor, mas a verdade é que não sinto dentro de mim nenhum amadurecimento, nenhum perdão para os homens, a vida... E para cúmulo de tudo não creio em Deus, se é possível ter uma frase tão arrogante como essa."
De Mario de Andrade para Bandeira:
"Quando você me faz qualquer reparo, geralmente aceito e quando não aceito modifico, parafuso, repenso, trabalho. Isso prova que sei que você me aprecia com inteligência, com crítica, com independência de coração. Você comenta que a nossa amizade é carteada... Isso não quer dizer nada, Manu! Isso é que é o mais puro mais elevado mais masculino feitio e manifestação de amizade."
De Bandeira para Mario de Andrade:
"Eu já estava muito inclinado a pensar que não lhe queria verdadeiramente bem. Isso nasceu do fato de ter a nossa amizade nascido e crescido em cartas. Há uma diferença grande entre o você da vida e o você das cartas. Nas cartas você se abre, pede explicação, esculhamba. Quando está com a gente é... paulista. Você esteve na minha casa e não cometeu a menor indiscrição."
Manuel Bandeira, 16 de dezembro de 1925
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